Nossa vocação é corresponder com o amor ‘louco' de Deus. Deus nos conhece inteiramente, sabe muito bem do que necessitamos. Somos as criaturas mais amadas de Deus. Ele intervém sempre em nossa história para revelar o seu plano de amor. Somos vocacionados a existência, a ser gente. Deus em sua benevolência imprime no ser humano o seu sopro vital e dá-lhe a liberdade de ser co-criador com ele. Somos atraídos para transparecer a imagem e semelhança de Deus no mundo. Portanto, Deus sempre toma a iniciativa de antecipar o encontro com o ser humano, principalmente quando este se afasta da vida reta. A iniciativa de Deus é um convite a cada pessoa para sair de um vazio interior e preenchê-lo do amor que transborda. Deus nos convoca para servi-lo com amor e por amor. São Francisco era um homem que tinha seus sonhos, ambicionava status, queria ser um exímio cavaleiro, reconhecido e aplaudido por todos. Todos esses sonhos um dia foram por água abaixo. Certo dia quando almejava lutar nas cruzadas em favor da Igreja e para satisfazer a ambição do pai, foi surpreendido por uma visão que lhe indagara: “Quem pode ser-te mais o ‘Senhor' ou o servo? Como lhe respondesse: o Senhor, de novo lhe disse: por que então deixas o Senhor pelo Servo e o Príncipe pelo vassalo? Francisco diz-lhe: Que quereis que eu faço, Senhor”? (LTC 2, 6).
Francisco desiste de seus sonhos e volta a contemplar a voz de Deus que clama em seu interior. O seu foca agora passa a ser Deus, ser cavaleiro do grande Rei era o seu objetivo. A intervenção de Deus em sua vida permite-lhe a saborear o verdadeiro sentido da vida. O amargo se transforma em doçura e o doce em amargura. Para o mundo medieval o doce era sinônimo de prazer, vida confortável, riqueza, status, mercador, cavaleiro etc., e o amargo era justamente o que causava repugnância, horror, o que vivia a margem da sociedade como os leprosos. Francisco renuncia toda aquela vida “doce” e transforma o amargor em doçura do reino dos céus.
Viver o carisma franciscano é abraçar os valores em sua concretude, é dar uma atenção toda especial para a vida de pobreza, obediência, pureza do coração e o anúncio de paz. Entender a pobreza de Francisco requer um olhar interior para a pobreza de Cristo. A pobreza de Cristo é imbuída de uma espiritualidade fora do comum. Jesus espiritualiza-a, porque esta é fruto do amor e da liberdade de Deus. É próprio de quem ama o se dar. São João afirma que Deus amou tanto o mundo que enviou o seu Filho único para nos salvar (Jo 3, 16).
Deus para nos salvar deu tudo que tinha, a Jóia mais preciosa, não reteve nada para si. Ao dar-se sem restrições “Deus fica pobre” é neste sentido que São Francisco e Santa Clara entendem a pobreza de Cristo. Deus é puro amor, a humanidade de Deus é um ato de amor, ele não se serviu de sua condição divina, mas por puro amor, empobrece sua divindade a fim de enriquecer nossa humanidade. Francisco se encanta tanto com a pobreza de Cristo que a chama de senhora, a dama pobreza. A pobreza em Francisco nunca fora abstrata, não era sua pretensão fazer um discurso sobre a pobreza. Ao contrário, ele desposa-a e trata-a com muito cuidado para não feri-la. A pobreza é fascinante, encanta o coração e a vida de Francisco, torna-se um fato concreto.
Celano afirma que “colocado neste vale de lágrimas, este bem-aventurado pai desdenha as míseras riquezas comuns dos filhos dos homens e ambicionando o mais alto vértice, cobiça a pobreza de todo seu coração. Percebendo que era amiga íntima do Filho de Deus, e agora expulsa em todo mundo, esforça-se por desposá-la, para ligar-se mais fortemente à esposa e serem os dois um só espírito... Por isso, apertou-a com castos abraços e não suporta deixar de ser esposa dela sequer por uma hora. Dizia a seus filhos que ela é a via da perfeição, o penhor e a garantia das riquezas. (II Cel. 25, 55).
Um dos fatos que marca a vida de Francisca é sua obediência. Ele é um obediente nato, coloca-se sempre a serviço do reino de Deus. Mas, era também uma pessoa transparente porque aspirava à pureza. Devemos em nossas relações deixar transparecer a ação e a vontade de Deus. O religioso que não se deixa transparecer para o mundo um olhar puro, um olhar divino é porque sua segurança são as coisas materiais e não Deus. Somos chamados a estar com Deus, a fazer a experiência com Ele. Deus ao entrar na vida das pessoas irrompe com a dureza do coração, ela deixa de viver no limiar de sua vida, e passa a entrar definitivamente no coração de Deus. Ser franciscano é não se preocupar com uma vida estável, sua pátria provisoriamente é o mundo, pois a definitiva é o coração de Deus. Somos vocacionados a viver a paz e a transmitir a paz. Este foi um dos legados deixado pelo seráfico pai. A paz é possível, devemos transmiti-la a partir da consciência de fraternidade universal.